A história do meu pai
Eu tenho pensado muito no meu pai ultimamente. Ele faleceu em 2018, aos 68 anos, por insuficiência cardíaca. Mas não escrevo este texto com tristeza. Muito pelo contrário. Escrevo para lembrar da vida do meu pai, o nome dele era Luiz.
Meu pai foi um cara incrível.
Ele viveu a infância na década de 50 e a juventude nos anos 60, 70 e 80 no Rio de Janeiro. Viu o Brasil ser campeão da Copa de 70, viveu a boêmia carioca e acompanhou toda aquela efervescência cultural da cidade. Dizia até que tinha sido amigo de Madame Satã. Ele jurava que era amigo, mas eu desconfio que só conheceu mesmo. rsrsrs
Também frequentou shows de samba produzidos por Oswaldo Sargentelli e trabalhou em uma fábrica de embalagens plásticas, época em que, segundo ele, ganhou muito dinheiro.
Meu pai era filho de português. Nasceu em Casa Amarela, em Pernambuco, mas ainda bebê se mudou para o Rio de Janeiro, onde foi registrado e criado. Na prática, era um carioca.
Nos anos 90, decidiu deixar a capital e ir morar no litoral do estado, onde eu e meus irmãos crescemos. Ele queria uma vida mais tranquila e, principalmente, mais segurança para a família.
Foi nessa época que trabalhou muito na praia vendendo suco natural. Um dia, uma turista baiana tomou o suco dele e disse que estava “porreta”. Pronto. A partir daquele momento, Porreta virou o apelido dele para o resto da vida.
E a casa do Porreta era uma loucura. rsrsrs
Era provavelmente uma das casas mais animadas do bairro. Sempre cheia de amigos, festas, parentes vindo do Rio para passar férias no litoral e gente entrando e saindo o tempo todo.
Ele gostava de cantar aquela música do Jorge Ben Jor que diz: “Sou Flamengo e tenho uma nega chamada Teresa”. Meu pai era um homem branco que casou com uma mulher preta e, sim, minha mãe se chama Teresa. Só tinha um pequeno problema: ele era vascaíno. Então adaptava a música e cantava “sou Vasco e tenho uma nega chamada Teresa”.
Profissionalmente, meu pai nunca teve exatamente uma profissão definida. Ele fazia o que aparecia. Produziu eventos, foi dono de bar, teve restaurante, trabalhou como representante comercial... O importante era trabalhar e colocar comida na mesa.
E foi com ele que aprendi muita coisa sobre o mundo do trabalho.
Ainda adolescente, eu já ajudava no bar. Mais tarde, também ajudava a fazer os relatórios que ele precisava enviar para uma empresa de café que representava. De um jeito ou de outro, trabalhar ao lado dele também fez parte da minha formação.
Hoje sinto uma saudade enorme de coisas muito simples.
De tomar um café com ele. Das famosas rosquinhas que fazia. Do bolo de banana. Meu pai também era um ótimo cozinheiro.
No fim das contas, quando penso nele, não são necessariamente os grandes acontecimentos que aparecem primeiro. São essas pequenas coisas. A casa cheia, as músicas, as histórias provavelmente um pouco aumentadas, a comida, o café e aquele sujeito chamado Porreta.
Se você ainda tem seu pai por perto, aproveite o máximo que puder. Tome um café, escute as histórias repetidas, faça perguntas, passe algum tempo junto.
Infelizmente, nossos pais não vivem para sempre.
Mas algumas histórias vivem.
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